Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Acordo a uma da madruga com o
maior chuvaral. Inacreditável! Dois lindos dias com céu azul de brigadeiro, ouro sobre prata, e agora esse fiasco climático! Francamente, hein, São Pedro,
podia ter deixado o mau humor pra amanhã, segunda-feira, né?! Pra variar, tô com a maior vontade
de fazer xixi. Dou um tempo, me apertando toda dentro do saco de dormir, na
esperança de que a chuva dê uma estiada. Quando percebo que o tamborilar dos
pingos não soa mais que nem surdo na lona da barraca, saio e deixo a urina,
até então cruelmente represada dentro de minha bexiga, jorrar, enquanto solto
ahs de prazeroso alívio. Sensação comparável a de um bom orgasmo. Quando volto a
acordar, de manhãzinha, dou de cara com o céu enfarruscado, sem sinal porém de
chuva. O tom melancólico do dia é fortalecido pela ciência de que hoje é a
finalera da pernada....sniiiiffff. Encontro os guris preparando o café, servindo a seguir um chima (aqui em Minas, é o contrário, hehe) para dar aquela energia à caminhada.
Quando ontem, Rodolfo surgiu com o chimarrão no café da manhã, intrigada, indaguei donde
ele adquirira tal hábito. Ele explicou que tem um pé no Rio Grande do Sul pois a mãe
é de Sta Maria. Mundão pequeno sem fronteiras esse, oigatê! Passamos a cuia de
mão em mão, esticando a conversa, de modo a fazê-la render até o início da pernada,
hoje curtésima, não mais que 2 horas. Merda de tempo fodido, estragou nosso
plano: tomaríamos aquele banhão no rio e depois retomaríamos a andança, devidamente,
refrescados. Outro aguaceiro nos afugenta pra dentro das barracas. Aproveito e continuo
a leitura do surpreendente Headhunters, policial magistralmente escrito pelo norueguês
Jo Nesbo. Às 11 e 30, com o aguaceiro reduzido a uma poeira aquosa, Rodolfo dá o
toque de levantar acampamento. Thomas irá nos resgatar
às 14 horas num ponto do município de Alagoa. Urge que partamos, sem tardança. Ai que saco, que perda de tempo a ampla capa de
borracha, tipo às que são usadas por pescadores, que visto quando partimos. A tal garoa não dura nem 20 minutos. Ao passar pela sede administrativa do
Parque Estadual Serra do Papagaio, paramos prum dedo de prosa com um dos guarda-parques que lá se encontra.
Senhorzinho entrado nos anos, ele concorda conosco quando chamamos a atenção pra grande ajuda prestada pelos guias na conservação e preservação da natureza. No horário aprazado, o falante
Thomas está a postos nos esperando no local combinado. Sobressai, na paisagem, a pequena serra de Santo
Agostinho e seu pico do Garrafão. Pelos meus cálculos, a distância percorrida - mais ou menos, é claro, - nos 3 dias de pernada foi em torno de 35 km. Voltamos a Passa4 onde chegamos no meio do domingão. Fico de bobeira, no casarão,arrumando minhas coisas. Amanhã, tenho de reiniciar meu
movimento de retorno ao Sul. Meus planos iniciais previam, além do trek na
trilha do Segredo, a ascensão ao Itaguaré que eu não conseguira culminar quando
estivera, aqui na Páscoa, socando a bota na desafiante travessia Marins-Itaguaré.
Com tempo chuvoso, mas chuvoso mesmo, castigando a pernada durante os 2 últimos
dias de trek, Willian nosso guia, resolveu, a bem da segurança, abortar a
subida ao cume faltando apenasmente uns 200 m pra atingi-lo. Fiquei com a tal síndrome
da frustração, daí por que fiz questão de incluí-lo mais uma vez neste rolê na
Mantiqueira. Infelizmente, em razão de dores no ciático, sou obrigada a desistir
de subi-lo (te pego, ai se te pego, Itaguaré, hehe). Olha, tenho abusão ao tal
bordão “a montanha tá ali, não vai fugir”. Esse tipo de consolo não cola muito
comigo. Mas tenho de reconhecer que, de fato, essas pedrocas não se movem tão
facilmente, não, hehehe!! À noite, diante da deserção de nossos guias - Willian
se mandando com sua Josi pro chatô deles (por que será que recém-casado só quer
ficar em casa hein?), e Rodolfo só querendo saber de curtir filme com Tao, seu
pimpolho - eu e Zé Natureza decidimos jantar no restaurante Seis e Meia,
especializado em truta. Uma delícia os pratos por nós escolhidos. De pancinha saciada, quando volto pra pousada, não demoro nadica a pegar no sono de tão empaturrada. Dia
seguinte, segundona, começa minha volta, despacito no más, em direção ao Sul. Mais uma vez,
faço um pit stop de 2 dias em Campinas. Tão boa voltar a curtir a vibe gostosa da casa de Patricia.
Se tivesse que escolher outra casa pra morar, com certeza, seria a dessa minha queridésima
prima-irmã. Na quarta-feira, outra parada em Curitiba, alugando novamente o
sofá na casa de Fatima. E pra variar, dessa feita, derrubamos só 3 garrafas de
vinho (não pretendo tão cedo retornar a casa de minha amiga, o que se bebe lá é
pra gente grande, hehe). Na quinta-feira, quase na fronteira do Rio Grande, resolvo,
dar uma esticada em Praia Grande. Faz horas que não vejo minha querida
Mariolinda. E Mariana, aquela Selau mimadésima, tá grávida! Tenho de vê-la barriguda de sua Isabela. Na
sexta-feira, dia 4, chego triufante, gargalhando feliz da vida, em Portinho
depois de ter percorrido em segurança 3.000 km!! Uhuuuuuu
Acordo na madruga e o que vejo?
A lua minguante rodeada de zilhões de estrelas. Ver essa cena compensa a saída
do quentinho do saco de dormir pra enfrentar o ar geladinho da noite na obriga de
fazer xixi. Nem é tanto frio, assim! Aqui no sudeste não faz frio igual ao do sul. Quando acordo às 5 e 30, escuto os guris conversando e preparando o
café. O dia amanhece lindo. No vale, em frente à serra do Chapadão, o nevoeiro
paira baixinho. Durante o café Rodolfo conta uma estorinha acontecida há um par
de anos atrás envolvendo 2 jovens daimistas. Estava ele com um grupo acampado
aqui, neste mesmo local, quando foram surpreendidos pela chegada do casal. “Bom
dia pessoas, sou Sideral”, apresenta-se ele. “E eu Celeste”, completa a moça em
tom suave. “Vocês poderiam, por favor, não acender fogueiras? O risco de
incêndio é bem maior”, frisa o rapaz em tom firme mas gentil. E Rodolfo,
entusiasmado, continua a discorrer sobre o Daimismo. Seu conhecimento advém dos
anos em que sua mãe seguiu essa doutrina. Fico então inteirada que na região há
3 comunidades: a de Pedra Negra, situada atrás da Serra do Chapadão, e
as de Matutu e do Gamarra, sitiadas naqueles vales. Os daimistas, prossegue
Rodolfo, são mal interpretados. As pessoas por desconhecimento de seus princípios
doutrinários, cuja origem, a bem da verdade, é cristã, só se fixam no lance do
chá e suas discutíveis propriedades alucinógenas. E, mais, enfatiza ele: os
daimistas são autossustentáveis já que vivem do que plantam e fabricam,
organizando-se em cooperativas. Zelosos em relação à natureza, reivindicam o direito
de, em sendo filhos de proprietários de pequenos latifúndios, exercerem o
ofício de guarda-parques das unidades de conservação existentes na Mantiqueira.
Embora de fala-mansa, exigem observância das boas regras de preservação da
natureza. Todo esse conversê é pra explicar o porquê de a trilha ser chamada do
Segredo. A um, pelo mistério que cerca os daimistas, fruto da ignorância sobre os
preceitos do amor e da fraternidade pregados pelo negro maranhense, Mestre
Irineu, idealizador da doutrina. A dois, pela escassa frequência nos senderos que
unem a serra do Papagaio a do Charco. Vem daí que os guias Rodolfo, Zangão
Dourado da Mantiqueira, e Sir Willian, Príncipe das Terras Altas da
Mantiqueira, seguindo a cartilha do arcadismo (tão em voga entre os poetas
inconfidentes do século XVIII), tascaram o instigante apelido de trilha Do
Segredo em mais um dentre os infindáveis caminhos que a Mantiqueira nos reserva.
Mas bah tche, fico viajando na do Sto Daime e perco o fio da estória.... onde eu
tava mesmo? Ah, lembrei! Saindo do Cerro Frio, entramos numa mata atlântica e
20 minutos depois desembocamos num descampado, conhecido como Campo das
Macieiras. Rodolfo, visivelmente emocionado, pára e aponta uma agulha de
granito fincada no extremo norte da clareira. “Este lugar foi onde o Professor
Hemoto escolheu pra fazer a acupuntura na terra. Pra purificar mais ainda as
águas que correm embaixo do solo!” Infensa, geralmente, às emoções pueris, não
resisto a essa autêntica manifestação telúrica e deixo minha pele se arrepiar.
Agradeço, em voz alta, ao maluco beleza do professor Hemoto pela sua genial
realização! Depois dessa agulhada espiritual, percorro com mais alegria ainda o
longo trecho da estradinha de chão batido que vem a ser a Transdaime. Explico,
a Transdaime foi uma tentativa dos daimitas de unir a Serra do Papagaio à do
Charco. Ainda bem que o Ibama impediu a continuidade da obra! Nessa aí os
daimistas mandaram mal pra caramba! Vestígios da Transdaime evidenciam-se no estreito
trilho que sulca o solo arenoso. Ao longe, uma longa subida me deixa meio
assim-assim. Zé Natureza, coitado, chega a parar e se apoiar em seu bastão de
bambu, reunindo forças pra empreitada. Como a toda subida corresponde uma
descida, eis-me agora - coisa boa - caminhando faceira ladeira abaixo. Dura pouco minha alegria
porque outra subida já se sucede. Mesmo carregando aquele fardão nos costados,
os guias já vão longe. Que força esses guris têm, benza deus! Zé, o lanterninha, vem na boa, naquele seu ritmo
pachorrento de caminhante “devagar se vai ao longe”. Vegetação rasteira na crista da serra do Charco
donde se vêem os morros da Campina, Sol, Nogueira, Mitra e Bispo, à esquerda.
Já à direita, a face oeste do Pico do Papagaio e o topo plano e espaçoso do
Cerro Frio, situado aos pés do Pico do Gamarra. Rodolfo chama minha atenção pra
cachoeira do Fundão, encravada nos confins do vale do Matutu. Mais adiante,
avisto mais nitidamente a Serra da Careta e seu ponto mais alto, Pico do Chapéu.
Ao sair da crista, entramos numa mata atlântica, parando à beira dum ribeirão cujas
águas formam uma pequena cascata. Fazemos uma boquinha, bebendo suco de limão e
mordiscando amêndoas, castanhas e pistaches. O que tem de macela nessas
paragens do Charco, salta à vista. E macela branca além da amarela!! Nem sabia
que havia dessa cor! Nova subida pela encosta dum morrão onde as candeias
fornecem um pouco de sombra. Após curta caminhada noutra crista, uma descida
punk que dá noutro riacho. Mais uma subidinha e na descida já se avista o rio Santo
Agostinho e suas cascatas e corredeiras. Cruzamos o rio cujas águas, um
tantinho revoltas, inspiram certo cuidado. Percorrendo encostas de morros, ainda é visível o rio Santo Agostinho. Mas bah, tche, por essa eu não esperava, olha só: bosques
de araucárias dando pinta na paisagem! Mas vem cá, essa árvore não dá só no
sul? Tsk tsk tsk...vou morrer e não vou ver tudo! Basta de divagar, volta a
narrar, mulher! Bueno, reza a lenda que os índios, no inverno, vinham até essas
paragens atrás de caça e pinhão. Por deus, sinto uma vibe fantasmagórica pairando
forte nessas paragens mantiqueirenses: índios, bandeirantes, capitães de mato,
negros fujões e jesuítas. E, agora, nós, os loucos por aventura, querendo
curtir um barato com a natureza....pois é! Nossos estômagos – afinal já são 14
horas - reclamam de fome. Se faz então uma parada pro almoço. Terminada a refeição (a mesma de ontem),
caminha-se por mais encostas de morros. Numa curva da trilha, o rio Santo
Agostinho se faz presente novamente exibindo em seu leito uma borbulhante corredeira.
Céu azul de brigadeiro. Às margens doutro rio, onde há anos atrás houve uma zona
de garimpo, paramos. Encho-me de coragem e encaro suas águas frias. Bem escandalosa,
solto gritinhos ao mergulhar. Saio, entretanto, revigorada, pronta pra trilhar
mais trocentos kms, hehe. Retomamos a caminhada e decorrida 1 hora, estamos diante
doutro rio. Atravessamos até a margem oposta, caminhando por seu leito
alajotado onde as águas escorrem calmas e rasas. Este será o lugar onde pernoitaremos.
O terreno, plano e úmido, favorece o crescimento de touceiras de estrelas
brancas, erva cuja floração ocorre justamente nesta época do ano. Rodolfo
prepara um café e depois eu faço caipirinha. Na janta, pizzas!! Salgadas e
doces, sendo que estas são Romeu e Julieta e de Nutela. De bebida, vinho tinto.
Uma festa esta noite, pirilampos na terra, estrelas no céu e o barulhinho da correnteza
do rio vibrando no ar!
Embarcamos eu, Zé Natureza,
Willian e Rodolfo, no 4x4 dirigido por Thomas. Este passaquatrense da gema,
dono duma oficina mecânica onde também restaura carros antigos, paixão que
herdou do avô, é dono dum autêntico sotaque de mineiro do interior. O ponto de
partida de nossa pernada é o município de Aiuruoca, distante 100 km de Passa4. Inicialmente,
rodamos pela MG 354, parando rapidamente em Pouso Alto onde os guris compram
uma rica duma cachaça e ainda um belo naco de queijo colonial. Lá pelas tantas,
Thomas envereda por uma estrada de chão batido que faz parte do famoso circuito
Caminho dos Anjos, clássico pedal de 240 km nas terras altas da Mantiqueira. A viagem
dura quase duas horas quando então paramos a beira duma estradinha já a uma
altitude de 1.760 m. Estamos do outro lado do vale do Matutu, escondido das
nossas vistas pela belezura dessa serra do Papagaio, que se vê de cabo a rabo
no sentido oeste-leste, destacando-se de imediato o pico do Papagaio. A indiada que faremos é uma travessia
de 3 dias, no sentido norte-sul, percorrendo uma porção da serra do Papagaio e ainda
um vistaço na serra do Charco. Terminaremos no sopé da serra de Sto Agostinho,
em Alagoa, coroando o domingão. E lá vamos nós estrada afora, donde do solo afloram pontinhos brilhantes:
é a mica à flor da terra! Nem bem 15 minutos de soca-bota, uma placa indica que
estamos numa área de preservação natural, chamada serra dos Garcias. Ao longe,
bem ao longe, vislumbre duma cachoeira e seu véu de água carimbando de branco o verdor da mata adjacente. No Ipod shuffle, escuto uma versão
eletrônica de tangos e milongas...um barato! Após 1 hora e 3 km de subida,
entramos nos Campos do Senhor. Tal nome, por óbvio, em louvor a JC, deve ter
sido dado pelos onipresentes jesuítas, quando cá estiveram há coisa de 2
séculos. Vestígios de suas andanças materializam-se nos escombros duns muros de
taipa que marcam a entrada no “campo santo”. Atravessamos o ribeirão do
Papagaio cujo fluxo minguado de água mesmo assim permite que reabasteçamos
nossas garrafas. Eu me recuso a pôr clorim, gosto nadica de nada do sabor desagradável
que esse desinfetante deixa na água. Até hoje meus exames de fezes nunca
acusaram verme algum, tá ligado? Variedades de flores, cada uma mais linda que
a outra nas campinas mantiqueirenses. Uma delícia vê-las balançando ao sabor da
brisa. A subida continua até o retiro dos Pedros onde os cercados de taipas mostram-se
bem melhor conservados. Rodolfo explica que serviam como proteção ao gado.
Árvores de pequeno porte fornecem uma sombra gostosa. Eu e Zé, sentados em
bancos improvisados nas pedras, aguardamos, famintos, os guias prepararem o almoço.
É um baita dum engasga-gato composto de pão de sanduíche, lombinho defumado,
queijo provolone, tomate, mostarda e um chimichurri danado de bom feito por
Rodolfo. De bebida, suco de morango....de pacote, é claro! O dia, supimpa, sem
pinta alguma de nuvem no céu, temperatura cálida. Descansamos após a refeição,
cada um largado no chão, pensando na vida. Silêncio bom, gostoso demais. Entretanto
há que se movimentar. Os guias dão o exemplo socando o tralharedo no interior
de suas cargueiras, pesando cada uma uns 30 kg, ao passo que eu e Zé pegamos
nossas levianas mochilas sem esforço algum, hehe. Retomamos a caminhada,
atravessando inicialmente campos, entrando depois numa refrescante mata atlântica, sucedida por outra vastidão de campos que dão lugar a mais um bosque
de mata atlântica. Contornamos o pico do Gamarra, outro point super procurado
pelos montanhistas brasileiros que adoram fazer seu cume de 2.357m. Mais adiante,
o largo platô, conhecido como Cerro Frio (2.067 m), devido a sua localização privilegiada,
é o lugar escolhido para ser nosso acampamento. Donde nos encontramos, se tem
uma panorâmica sensacional da Mantiqueira: ao sul, o vale do Gamarra
esparramando-se diante das serras da Careta, do Chapadão e do Garrafão, em segundo
plano, o dorso calomboso da serra dos Coelhos. Ao longe, mal se distinguindo, Marins,
Marinzinho e Itaguaré. Bem mais visíveis, porém, se mostram 3 Estados e Alto
dos Ivos, picos pertencentes ao complexo da serra Fina, vizinha de quadra do
maciço de Itatiaia. À leste, vale do Matutu donde sobressaem os picos da Mitra,
Bispo, Nogueira e Cabeça de Leão. Lá no fundão, já em Visconde de Mauá, a
pontinha afiada do cume do Alcantilado. O local onde estamos, Cerro Frio, vem a
ser a divisa entre a Serra do Papagaio e a do Charco. Sentados ao ar livre - eu
já dentro do saco de dormir porque muito friorenta - curtimos o rápido pôr do
sol cuja coloração vibrante incendeia de vermelho as bandas de Caxambu e torna dourado
o capim ao redor. Cinemascópica visão! E dale a beber vinho tinto pra se aquecer. Quando
a noite se instala em definitivo, mais um regalo: o céu impecavelmente estrelado
pisca boa noite para nosotros. É tudo de bom mantiqueirar!!
Saio
de Porto às 23 e 30 de quinta-feira, pernoitando em Torres, num hotel à beira
da BR 101. É minha primeira grande viagem dirigindo euzinha - sozinha - meu carro. Estou numa empolgação que mantém a adrenalina lá em cima...adoro tal sensação!! Na
sexta-feira, perocorro, com chuva, às vezes forte, todo o estado de Santa Catarina. Só estia o chuvaral quando
entro no Paraná. De São José dos Pinhais, uma espécie de Canoas dos paranaenses,
à casa de Fatima, em Curitiba, levo 2 horas – isso mesmo - 2 horas porque o
trânsito neste horário – 18 horas – é de fuder de muvucado!! Afora isso, o GPS mais me confunde que
ajuda...uma merda!! Telefono pra Pece
quando estou quase chegando e combinamos de ele me buscar na casa de Fatima pra
jantarmos juntos. Vamos então, eu, Pece e Fernanda, sua namorada, ao Pamphylia,
tradicional restaurante curitibano situado no Batel. Retorno a casa de Fatima
e já a encontro em casa. Comemoramos o reencontro bebendo 3 garrafas de vinho
(e eu já partilhara, no restaurante, uma garrafa com o casal de amigos!). Dia seguinte, acordo me
sentindo um pouco ressaqueada, o que não me impede de pedalar com Fatima e
Jamila até o mercado municipal onde almoçamos. Como pouco porque já começo a sentir certo mal estar que vai se agravando mais e mais ao ponto de eu ir 3 vezes ao
banheiro pra vomitar tão mal me sinto. Quando começo a pedalar me sinto melhor,
mas a chuva reinicia (havia caído um pancadão durante o almoço), o que nos
obriga a voltar pra casa. E o mal-estar volta com força total quando me deito
no sofá pra assistir a um filme com Jamila enquanto Fatima estuda pra 2ª fase
da prova da OAB. Mais uma vez – a 4ª! – volto a vomitar, dessa vez pra pôr pra
fora os últimos vestígios do almoço. Só consigo me recuperar lá pelas 23
horas....que horror!! Nunca mais quero beber tanto...saravá! Domingo, Curitiba continua debaixo do mal tempo.
Chove a beça. Aproveito uma brecha no chuvaral e pego a estrada novamente.
Fatima, uma fofa, me guia até a Regis Bittencourt. E a chuva volta a apertar. A
rodovia, na saída de Curitiba, em péssimas condições de trafegabilidade, exibe
buracos e desníveis que formam lâminas de água perigosíssimas. Não dá outra:
quase aquaplano o carro. Por sorte, sempre aciono o 4x4 da camionete quando o
tempo está chuvoso. O que me salva duma derrapagem talvez fatal. O carro valsa
um pouco, mas segura legal o tranco, apesar do tanto de água sob os pneus. Se
eu tivesse perdido o controle, teria chocado com o caminhão que estava
ultrapassando. E não estaria aqui contando a viagem. A chuva não dá trégua, cai
água de balde do céu. Vejo 2 carros capotados. Um deles está tão detonado que
não deve ter sobrado ninguém vivo. Quando mais tarde paro pra comer algo, um
caminhoneiro com quem converso enquanto bebo um café, conta que o casal do tal
carro capotado escapou na boa do acidente. Deus do céu, muita imprudência nas
estradas, demais!! Tem motora que não diminui a velocidade mesmo que chova
canivete. O trecho da Regis Bittencourt, localizado na belíssima serra do
Cafezal, além de perigosíssimo porque cheio de curvas e buracos tem só uma
pista. O trânsito se torna lentíssimo então. O que poderia ser feito
prudentemente em 1 hora demora 2!!! E a chuva continua implacavelmente.
Estou um tantinho ansiosa com a passagem pelo rodoanel Mario Covas, elo viário
entre a Regis Bittencourt e a Bandeirantes. Contudo, me saio muito bem (até
dispenso o GPS) porque as saídas são muito bem sinalizadas. Chego a Campinas em
torno das 19 e 30, após 8 horas de viagem. Minha lombar doi, não só de ter
ficado sentada tanto tempo quanto da tensão em dirigir. No trecho final, já na rodovia
Dom Pedro I, Patricia, a quem contato pelo celular, é quem me serve de GPS,
muito mais confiável que esta moderna bússola. Curto demais a casa dessa minha
querida prima-irmã, onde me sinto quase tão à vontade quanto na minha. Exceto
na segunda à tardinha, quando corro na Unicamp, os dois dias em que permaneço
em Campinas, faço da sala da TV meu quarto. Bem baixada no confortável sofazão,
assisto, numa maratona frenética, a 4ª e 5ª temporadas do badaladíssimo seriado
Breaking Bad. Ah, e o que são os deliciosos almocinhos preparados por Patricia?
No almoço, apenas carnes e saladas. Carboidratos são reservados para o
lanchinho da noite, hehehe!!! Na quarta-feira, infelizmente, tanta mordomia tem
um fim. Preciso partir pra Passa4. Minha prima me conduz até a D. Pedro. Os 132
km rodados nesta excelente rodovia são um prazer. Um baita sol ilumina com
vigor a manhã. Ainda bem, porque desde sexta-feira só o cinza tem dado pinta no
céu. Me confundo um pouco - tudo culpa dessa merda de GPS!! – pra pegar a Dutra.
Graças aos nativos e às placas chego em Passa4, mais exatamente à pousada
Harpia onde vou me hospedar durante minha estadia aqui. Willian, o príncipe das
Terras Altas da Mantiqueira, um dos guias da agência Harpia, me recebe com
aquela mineiríssima afabilidade. Pouca demora, prepara café preto no fogão a
lenha instalado na espaçosa cozinha do casarão. O vento forte me faz desistir de
dar uma corridinha. Fico então de prosa com Will e Josi. À noite, enquanto
degusto uma cachacinha – de lamber os beiços tão boa é - envelhecida em barril
de umburana, indago de Rodolfo detalhes da travessia que me motivou a vir de
tão longe.
Grata surpresa me reservam esses dois guris!! A pernada na serra do
Papagaio, comumente feita no sentido leste-oeste ou vice-versa, será no sentido
norte-sul, trilhando lugares pouquíssimos frequentados....ebaaa!!!! Acordo na
quinta e o vento continua bufando forte, tanto que a vegetação não pára de
dançar. E o que é esse frio? Até parece o Rio Grande do Sul esta terra, uai!!
Um belo café da manhã me espera na cozinha. Dou um rolê de 22 km
pedalando minha magrelinha verde-amarela (trouxe ela no suporte traseiro do carro, sim senhor!!) ao longo da
antiga ferrovia da Mantiqueira com Willian. Após, almocinho de comida super caseira
na Dª Filhinha, seguido dum café na única chocolateria da cidade, repleta de guloseimas. Zé Natureza
chega à tardinha. Muitos papos na cozinha e a adrenalina correndo nas veias na
expectativa da indiada que nos aguarda amanhã. Trilha do Segredo, olha eu
chegando........ebaaaa!!!