Resolvida a fazer algo diferente
em termo de pernada, escolhi encerrar o ano de 2016 com a pouca conhecida
travessia Cassino-Chuí. A um, porque
tridiferente de tudo o que já fizera: terreno plano calcorreando um
litoral a perder de vista e, a dois, porque, tendo nascido em Rio Grande, seria
uma forma de homenagear a terra natal onde a praia do Cassino se localiza. Não
dei a mínima importância ao comentário de tia Janina quando a par de minha
decisão. “Mas Beatriz é só água e areia”, pontuou ela dando uma risadinha
zombeteira. As
recordações da infância eram as que importavam, sem defeito que
maculasse a reputação do balnéario aos olhos da criança que outrora fui. A menina apenas conhecia a faixa de litoral compreendida entre os molhes e Querência, ou
seja, uma extensão de pouco mais que 8 km. Àquela época, tudo era grandioso: dunas
enormes, ondas atemorizantes, golfinhos nadando a 100 metros da praia,
castelinhos de areia e um céu sempre azul, pura e total felicidade, hahaha. Me toquei
faceira da vida pro Cassino, no sábado, hospedando-me no icônico Hotel
Atlântico, construído no final do século XIX!! Quando criança veraneava na casa
de minha bisavó, no “quadro”, assim chamado o quarteirão de casas situado justo
em frente ao hotel onde, em certas noites da semana, assistia, na companhia de
minhas tias-avós, ao show de variedades apresentado por Ludio. Desde aquela
época - e olha que já se passaram mais de 5 décadas -, tem-se mantido o verdor da folhagem ostentado
pelos plátanos plantados no pátio interno do Atlântico. Pra minha alegria, à
tarde, um campeonato estadual de bandas e fanfarras acontecia no balneário.
Fantasiei, como a tolinha romântica que às vezes sou, que o evento era em minha
homenagem, pra comemorar o retorno da filha
pródiga, hahahaha. Eu mais duas
amigas riograndinas permanecemos, por um
bom tempo, curtindo o desfile que exibia numa das bandas - sinal dos
tempos, aleluia – uma baliza gay, super aplaudido pela platéia. À tardinha,
chegou o restante do grupo, 11 clientes, 2 guias, um cozinheiro e um motorista.
Fomos todos a uma pizzaria onde a confraternização foi de pouca demora já que o
toque de alvorada no dia seguinte seria tempraníssimo. No domingo, o tão
aguardado primeiro dia iniciou com café da manhã servido às 5:30. Terminada a
refeição, partimos pros molhes do Cassino, considerado o ponto zero da
travessia com finalera na barra do Chuí distante 210 km. O que posso dizer de
tal pernada? Foram 7 dias de clima irregular, ora
nublado, ora ensolarado.
Houve dias com vento sul fortíssimo, sendo que, num deles, impossível manter
longas conversações senão ficaríamos com a boca cheia de areia (parafraseando o
famoso ditado, “em boca fechada não entra terra”), em outros, um vento ameno
atenuava a elevada temperatura daquele ambiente onde inexiste a benção
refrescante duma sombra. À noite, contudo, o céu explodia de estrelas, baixando
uma agradável friaca, lembrando um pouco as variações térmicas existentes em
zonas desérticas. A paisagem, enclausurada, à esquerda, pela imensidão
gigantesca do Atlântico e, à direita, pelas dunas - tão pequenas se comparadas
àquelas de minha infância -, sofria superficiais modificações quando intervinham
na, faixa de areia, ora animais mortos (uma baleia com o filhote ainda preso
pelo cordão umbilical, um boto e uma
capivara quando passamos ao largo da reserva ecológica do Taim), ora a presença
dos faróis Sarita, Albardão - o maior do
litoral brasileiro - e o do Chuí. Reforçando, mais
ainda, tão desolador cenário meia dúzia de vestígios de cascos de barcos e
navios que empurrados pelo vai-e-vem das marés vieram dar com os costados à
beira mar. No litoral brasileiro, comum a existência de riachos e rios riscando
o areal rumo ao mar. O nosso, o gaúcho, é claro, não foge à regra. Daí termos
sido obrigados a vadear durante boa parte dos 7 dias de
pernada dezenas de córregos cujas nascentes, em sua maioria,
se originam do acúmulo das águas da chuva represadas entre as dunas,
distantes poucos quilômetros da praia. Tais lugares, por óbvio, foram os
escolhidos pra acampar onde podíamos nos banhar após a exaustiva jornada. Da
turma, o destaque foi o carismático Alemão, um autêntico vira-lata que
nos acompanhou dos molhes do Cassino até a barra do Chuí. Uma figuraça o dogue
que, ao longo da pernada diária, ora avançava ora recuava como se fosse o
zeloso guardião dum
rebanho de ovelhas (não querendo ser maldosa mas sendo, hehe, pra mim, alguns “colegas”
revelaram mais feição de lobos em pele de cordeiro). Do mulherio, pena, mas não
consegui tirar nenhuma pra comadre, provavelmente, a falta de senso de humor me
tenha afastado delas, sérias demais as gurias pro meu gosto; já dos homens, simpatizei com
dois paulistas. Sublimamos tédio e cansaço sofridos durante a pernada em caçoada, compartilhada alegremente entre os três. Assim, por cada um de nós a travessia foi batizada de abismo horizontal, flagelo praiano e calvário à
beira mar. E quando comecei a querer incluir o carioca no rol de meus afetos,
este se revelou um pseudo místico: à noite não resistia ao voto de silêncio que
se auto impusera e quebrava o mutismo contando piadas sem qualquer pingo de
graça. O grupo, em matéria de experiência como caminhante, era díspare. Gente
que nunca fizera trek na vida, outros que
realizavam singelas incursões em fins
de semana e, por último, aqueles com vivências mais relevantes tipo a pegada de
Santiago de Compostela. Não dá pra deixar de passar em branco, 3 mulheres que
estavam repetindo, repetindo (!!!) a travessia porque o mau tempo as obrigara a
desistir em ocasiões anteriores. Porém a vocação de autoflagelação ou, vá
lá, de bancar o estóico – se assim preferirem -
ao enfrentar tão exaustiva jornada, cuja distância média entre
acampamentos batia frouxo nos 33 km diários, saltava aos olhos até dum cego.
Será que todos estavam querendo pagar por pecados desta, de anteriores e quiçá de
futuras encarnações?!! A pergunta que não quer quer calar: seria uma emulação
inconsciente aos dos antigos mártires cristãos da Idade Antiga?!
Com certeza, nin-guém foi poupado de sofrimentos físicos. Houve os que foram abençoados em só ganhar bolhas leves, outros, contudo, as
tiveram purulentas entre dedos e sob plantas de pés, sem falar de osteítes nas
canelas e bursites nos joelhos, acumulando algumas criaturas toda essa gama de
machucados! Digno de menção o
preocupante episódio de hipotermia sofrido por um
dos participantes! Em 14 anos de canionismo, trek e montanhismo, calcando a
botina em leitos de rios, florestas, serranias e altas montanhas, pela primeira
vez fui “agraciada” com uma bolha no quarto artelho do dedo do pé esquerdo que
me acompanhou desde o primeiro até o sétimo e último dia do trek. E não
adiantava costurá-la ao final da jornada a fim de drená-la. Retornava impiedosa
dia após dia decorrida 1 hora de caminhada. Como não há mal que sempre dure, no quinto dia, apenas no quinto dia, houve uma significativa quebra no
jejum paisagístico a que fui submetida ao percorrer roteiro tão despido de
atrativos. Foi a incursão até à beira da costa da lagoa Mangueira. Ao dar-se as
costas ao mar a onipresente e
insípida coloração arenosa da zona litorânea cede lugar - graças a deus! – a um
verdejante solo coberto de gramíneas donde brotam delicadas e coloridas flores
amarelas e
roxas. Percorridas algumas centenas de metros, ingressamos numa
espécie de grande anfiteatro, formado por cordões de dunas separados por vales
que se sucedem num raio de 5 km, lembrando tal cenário uma miniatura dos Lençóis
Maranhenses. Pequenas esculturas moldadas na areia pela ação do vento reafirmam
minha crença de que o grande arquiteto do Universo é a indomável, criativa e
ardilosa natureza. Um pouco antes de alcançarmos a margem da Mangueira, a inesperada
presença de dois belos exemplares de centenárias figueiras quebram a
monocromática brancura dos cômoros. Belo recanto “escondido” no meio do areal
litorâneo! Pra mim a viagem valeu por ter conhecido esta parte da lagoa
Mangueira que povoou minha imaginação infantil, juntamente com as lagoas Mirim
e dos Patos. Entretanto, Mangueira se diferencia das demais por possuir
características que a tornam única no Brasil. Ela não tem acesso ao mar,
tampouco rio algum nela desemboca. São 123 quilômetros de extensão de águas
provenientes da chuva bem como de lençóis freáticos, em uma área de 820 km².
Por
isso, tais condições garantem que sua água tenha uma coloração verde-clara
quase transparente. Nem tudo porém foi só espinhos, bolhas e traumas
musculares. Valeu o trek por testemunhar, ao longo de 210 km de litoral, o uso
de energia eólica menos danosa ao ambiente que as demais modalidades de
produção de energia elétrica. De quebra, as monumentais lâminas de aço remetem
aos românticos moinhos de vento de antigamente tão combatidos pelo
adoravelmente tresloucado Dom Quixote. Também valeu o trek por alguns belos,
breves e vibrantes pores do sol e amanheceres.
Por ter conhecido Hermenegildo, apelidado carinhosamente de Hermena
pelos nativos, em cujos jardins nascem onze-horas, flor que desencavou
reminiscências infantis há muiiito esquecidas: as das coloridas imagens vividas no jardim da casa
onde nasci há 64 anos. Por fim, valeu a viagem por conhecer, ainda que de relance, Barra do
Chuí, o último balneário fincado no extremo sul do Brasil. Viajar é bom demais
mesmo quando a pegada não envolve cenários espetaculares ou pessoas
interessantes. Sempre algo manero ocupará um cantinho de meu coração já que esta alma não é assim tão pequena.








