domingo, 6 de março de 2011

Travessia de rios

Acordo durante a noite, com o toc toc da chuva a tamborilar no teto da barraca. Lembro então do sonho com meu filho, declarando à queima-roupa que tá casando. Rapidinho, contudo, mergulho de volta num sono, dessa feita, sem sonhos. Também pudera, virada de sexta pra sábado, o período de 24 horas sem dormir conseguiu derrubar esta senhorinha de 58 anos que vos escreve! Merda....merda, acordo inchada. Mesmo a 1.100 m, a altitude já dá barato, sim!! As pálpebras intumescidas me tornam mais velha. Duplicada, a película sobre as órbitas lembra a de velhas tartarugas centenárias....arghhhh!!! Embora a caminhada até o acampamento-base não seja superior a 8 km, terminado o desjejum, deixamos o acampamento Tek às 8 e 10, já que o desnível até o base perfaz 770 m. Manhã nublada, contrariando os bons prognósticos daquele céu estrelado de ontem à noite. Ao longe, o Roraima apresenta nuvens em seu topo, ao passo que, no Kukenan, as nuvens começam a apoderar-se de sua base. Nem bem caminhamos 50 m, enfrentamos a primeira das duas travessias do dia: a do rio Tek. O rio não está cheio e o único cuidado que se deve ter é evitar uma topada nas muitas pedras que forram seu leito. De repente, destaca-se isolada no meio da campina uma pequena igreja feita de pedras com telhado vermelho. Chama-se Santa Maria de Todos Nós. A essa altura, o Kukenan e o Roraima já se encontram quase envoltos pelas brumas que cercam somente o local onde ambos estão plantados. Sei lá....tá me batendo um mau pressentimento a respeito do tempo. O que me distrai dos maus presságios é um arbusto, o murici, em cujo caule brota uma vistosa flor amarela. Paro, portanto, para fotografá-lo. Após subir uma colina, avista-se de seu topo, lá embaixo, o rio Kukenan perdendo-se de vista entre as dobras suaves da savana. Uma descida íngreme leva à margem direita do Kukenan (rio de água suja), que se junta ao Kamaiwa, rio que desce do topo do Roraima, formando a imponente queda d’água de idêntico nome, já visível bem antes do acampamento Tek. O resultado da fusão desses rios desemboca por sua vez no Orinoco, com o nome de Kukenan. Do Roraima (monte verde azulado) jorram ainda vários outros afluentes responsáveis pela alimentação de mais duas bacias hidrográficas: a do rio Branco, no Brasil, e a do rio Ezequibo, na Guiana. Enquanto a travessia do Kukenan não oferece grandes dificuldades, a do rio Kamaiwa complica um pouquinho porque há um ponto em que a correnteza forma um pequeno vórtice dificultando a passagem. Tirso, percebendo minha atrapalhação, aproxima-se e estende sua mão forte me socorrendo. Já os índios pemones cruzam o rio, sem esforço algum, levando às costas os pesados guayares (cesto de cipó ou palha onde é carregado o tralharedo das expedições; é o equivalente dos jamachis dos yanomamis). Terminada a travessia, a maioria do pessoal relaxa, tomando banho no rio. Alguns, não de forma recreativa, mas já fazendo uso do sabonete. Há um evidente exagero nessa ânsia do grupo pela higiene pessoal, cá entre nós. Um banho por dia me parece suficiente. Eu, por exemplo, já me molhei na travessia. Pra que mais banho? Refrescados, retomamos a caminhada, enfrentando uma lomba na estradinha sulcada de buracos formados pelo chuvaral típico dos climas tropicais. Após uma 1 hora de caminhada, alcançamos o acampamento-militar, onde paramos prum refrigério. Trata-se refrigério dum termo venezuelano que significa descanso pra se comer fruta. A de hoje são fatias de melão que Chico, nosso guia brasileiro, corta com destreza e distribui entre os membros do grupo. Retomamos o passeio, agora, sim, enfrentando uma trilha que não dá mole. A subida com duração de 75 minutos só termina no acampamento-base, onde chegamos às 12 e 50, debaixo duma chuva miúda que já vinha caindo fazia uns 40 minutos. Do Roraima mal se entrevê sua parede ocidental escondida pelo nuvaredo que dela já quase se apossou por completo. Pois não é que o pessoal que se havia banhando no Kamaiwa, resolve tomar outro banho num rio próximo ao acampamento? Será a terceira lavagem do dia!! Estou estupefata, por deus, com essa obsessão pelo asseio excessivo. Será que eles não sabem que banho demais retira a oleosidade natural da pele? Daqui a alguns anos essas damas tão caprichosas estarão prematuramente enrugadas e não atinarão com o motivo. Valeria chega a reluzir tão limpinha está. Bueno, faminta, acho o almoço tudo de bom: feijão, arroz e galinha desfiada com batatas. Sobremesa: goiabada. Abrigados sob um paiol improvisado, aguardamos que a chuva dê uma trégua pra podermos ir pras nossas barracas. A cerração agora envolve por completo não só o Roraima como o Kukenan, impedindo que se veja qualquer vestígio de seus fabulosos paredões. Como continua a chover, ponho minha capa e vou pra barraca onde me refestelo, improvisando um travesseiro, de modo a tornar mais confortável a leitura do 3º volume de Millenium, trama de suspense, escrita por Stieg Larsson. Envolventes os livros, não nego. Entretanto, a trama é mirabolante demais, resvalando em lances inverossímeis. Até os defeitos dos personagens principais viram qualidades. Por pouco, a tal hacker não adquire contorno de super-heroína tamanho os poderes com que é dotada. No meu entendimento, são inferiores aos policiais escritos por outro sueco, Henning Mankel, que considero um dos mestres do moderno romance policial. Seu personagem principal, cheio de conflitos e ambigüidades, é um homem comum e por isso excepcional. À tardinha, a chuva miúda, enfim, cessa e assim ao longo da parede oeste do Roraima, livre da neblina, surgem gigantescas fendas e grotões. Quedas com mais de 300 m vertem água desde o topo. A cachu Kamaiwa, lindíssima, despeja suas águas, verticalmente, sem interrupção, até a base dum platô, pra retomar sua queda, dessa feita, escavando outros platôs até atingir o solo. Consigo distinguir a trilha que amanhã nos conduzirá ao cume. Vejo nitidamente a rampa, logo após as Lágrimas, duas cachus enormes embaixo das quais deveremos passar. Parece impossível que esse paredão vertical ofereça trechos de caminhada, prescindindo da escalada. Amanhã, até que enfim, conhecerei o mundo perdido de Sir Conan Doyle!
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