sábado, 3 de abril de 2010

Prateleiras e Aiuruoca

Sexta-feira da paixão, 6 da matina, Ralph aguarda no portão da pousada. Como o desjejum só inicia às 8 (nunca vi, em minha vida, café da manhã ser servido tãooo tarde, em hotel nenhum do mundo! Esquisitices de Penedo), paramos numa padaria em Engenheiro Passos onde tomamos um café com leite acompanhado por pão na chapa com presunto e queijo. Durmo a maior parte da fastidiosa viagem e só acordo quando estou chegando na portaria do parque, conhecida como posto Marcão. O dia, nublado como o anterior, não prenuncia bom tempo. Droga! Junto com Binho um casal de paulistas, hospedado em Itamonte, além doutro guia, cujo curioso nome, Taniquinho, associo àquele brinquedinho, febre entre a criançada, na década de 90, o famoso Tamagotchi, em que se criava um animal de estimação virtual. Hoje, o lance é escalaminhar os 60 m do Prateleiras, maciço rochoso, situado em frente ao Agulhas. Um pouco mais adiante do Abrigo Rebouças, avisto, à esquerda da tal BR 485, a cachoeira das Flores, formada pelo rio Campo Belo. Caminhamos mais um pouco e enveredamos por uma trilha, à direita da estrada. O tempo, deus permita, começa a dar pinta que vai firmar. Quando chegamos ao sopé do Prateleiras, as nuvens cedem espaço ao glorioso azul anil, embora sobre o Agulhas paire, tal qual uma echarpe de chiffon, uma longa cauda de nuvens enfeitando de branco suas torres. Muitas flores durante o caminho, destacando-se as pepalantos, mais conhecidas como sempre vivas. E o sol, até que enfim, toma conta da paisagem. É outro astral um dia ensolarado!! Fabio e Ive, o casal de paulistas, mais Taniquinho largam na frente pelos meandros rochosos do Prateleiras. Atrás, eu e Binho perdemos os três de vista naquele emaranhado de blocos de pedra que se sobrepõem uns aos outros. Nunca até então fizera escalaminhada de tal nível de dificuldade. Minha minha praia é canionismo, cujo lance consiste apenas em descer cachoeiras. Agora o enrosco é outro: um trepa-pedra de respeito. Pra tornar mais adrenalizante a escalada, uma sucessão de gretas entre uma rocha e outra revela no fundão vertiginoso abismos. E eles acenam maldosos pra mim, pode?!! Começo a sentir medo e conjecturo se este não é o momento de eu desistir. Tô que nem Hamlet quando chegou àquela encruzilhada metafísica do to be or not to be. Reflito, cá com meus botões: “Biazinha, será que não deu pra ti? Quem sabe esperas, aqui, sentadinha, o retorno do grupo enquanto curtes a paisagem?” A idéia não soa tão desagradável porque o cenário é soberbo. Abaixo de mim, levita um compacto colchão de nuvens e mais além distingo os contornos da Serra Fina. Comunico minha decisão a Binho que dá um chega pra lá em meus receios. Com um enérgico “vamu, sim!”, espalha meu medo aos quatro ventos. E confiante em meu homem-guindaste (ele me guinchou, literalmente, em certos trechos porque eu, paralisada de medo, estaqueava que nem cavalo chucro entre uma fenda e outra), fomos vencendo os obstáculos até chegar no tal “pulo do gato”. Que nem foi tão difícil de ultrapassar porque os dois guias colocaram uma corda que ajudou em muito a travessia da tal grota. E sem mais aquela, eis euzinha no alto do Prateleiras, assinando o dito cujo livro. O primeiro de minha vida, hehehe!! A paisagem limpinha de nuvens, exceto por uma névoa que, renitente, ainda encobre o Agulhas. Estou tão feliz porque consegui chegar. E pensar que quase desisti. Comemos nossos lanches e confraternizamos com uns mineiros de Itanhandu, habitués do parque. Simpaticíssimos, oferecem suco e pão. Eu estendo um saquinho de nozes, castanhas e amêndoas. Ao sair do cume, dois grupos se preparam pra atravessar o pulo do gato. E cruzamos por mais outros três enquanto descemos. O parque, ao contrário de ontem, quando só eu e Binho éramos os únicos viventes, hoje tá bombando. A descida é tranqüila, sem sobressaltos. Curioso o comportamento de Ive. Sem maiores transtornos, a guria escalaminhou lépida e fagueira as pedras durante a subida. Agora, pra descer, tá levando medo. E daí entra em ação Binho, nosso homem-guindaste, ajudando-a. Fabio, marido de Ive, sugere conhecermos a pedra da Tartaruga, situada no entorno do Prateleiras. E lá vamos nós até o gigantesco bloco de rocha em tudo parecidíssimo com o réptil cascudo. Um pouco adiante, outra pedra, ovalada, de menor dimensão, recebe o justo apelido de Maçã. Mas nesse Itatiaia não falta nem pomar tampouco zoológico – de pedra, bem entendido! O Agulhas, enfim, exibe-se, absolutamente limpo, desgarrado do nuvaredo que o envolvera durante a maior parte do dia. A incidência do sol poente em seu paredão oeste tinge-o duma cálida luz amarelada. Sábado de aleluia, último dia de visita ao parque, escolho algo light. Um passeio até a nascente do rio Aiuruoca. Fico sabendo que um grupo, com quem cruzamos, enquanto descíamos do cume do Prateleiras, só alcançou a portaria do parque às 20 horas! Também pudera, já eram mais de 3 da tarde quando eles iniciaram a subida. É fácil se perder naquele labirinto rochoso, ainda mais quando se está sem guia, caso daquele pessoal. Até Binho, que conhece o lugar, mas fazia um tempinho não fazia trilha no parque, deu uma rateada lá pelas tantas até encontrar o caminho certo. E lá vamos, eu e Taniquinho, caminhando, inicialmente, ao longo da mesma trilha que conduz ao Agulhas. Após a represa sobre o rio Campo Belo, quebramos à esquerda, de forma a contornar o colosso rochoso. O tempo, que até então se mantinha discretamente nublado, começa a fechar mais e mais e um espesso nevoeiro toma, rapidinho, conta da paisagem. Passamos ao largo da Pedra do Altar, já totalmente encoberta pela espessa neblina, nos internando numa trilha com muita vegetação arbustiva. Incrível a quantidade de macela aqui no Itatiaia. Figurinha fácil de encontrar esta erva tão cheirosa. E em menor quantidade, vicejam tufos de arnica exibindo sua minúscula floração amarela. Um pouco de subida, nada, contudo, que demande muito esforço. O declínio da temperatura e um ventinho insidioso obrigam-me a vestir a jaqueta. Após duas horas e 30 de caminhada, avisto uma formação rochosa ovalada em cujo topo dispõem-se quatro pedras arredondadas. São os Ovos da Galinha. Chegamos ao ponto onde o Aiuruoca nasce. Dali pra frente, uma pernada, amassando um capinzal alto que cresce sobre um terreno super enxarcado. Turfas colorem de vermelho o terreno alagado. Cruzando o rio, alcançamos a cachoeira por onde as águas do Aiuruoca despencam 25 metros abaixo, formando um poço de bom tamanho, não muito profundo pois dá pra se distinguir bem as pedras submersas sob a água. Pergunto a Taniquinho se é possível rapelá-la. Ele confirma que se desce por sua borda direita, valendo-se de ancoragem natural. Pra tanto, aproveita-se uma pedra da beirada, amarrando-se ao seu redor a corda. Permanecemos, justo, o tempo necessário pra comermos nossos lanches, nos mandando logo em seguida. O mau tempo nos expulsa do lugar, não permitindo maiores contemplações da paisagem ao redor. Enquanto estamos retornando, sou atraída por vozes que vem do paredão oeste da Pedra do Altar, agora já visível. Olho pra cima e vejo dois escaladores num estreito platô, preparando-se para subir a inclinada parede que leva ao topo. Um deles, o que vai a frente, saca da mochila uma escadinha e por ela vai subindo enquanto costura a rocha. Proponho a Taniquinho sentarmos e curtirmos um pouco a escalada dos homens paredão acima. Conversa vai, conversa vem, fico sabendo, tardiamente, que poderia tê-la rapelado. Teriam sido 100 m de deliciosa descida. Adoro rapelar pedra seca. Infelizmente, não mais será possível. E faríamos em duas cordadas. Com uma parada no tal platô, prosseguindo até a base. Droga, droga, droga!! Quão tapada sou! Como não percebi que, se é possível escalar essas lindas rochas, também o é rapelá-las. Voltarei, uai!
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Um comentário:

Paulo Roberto - Parofes disse...

O Itatiaia é minha segunda casa, já fiz 14 cumes lá e pretendo fazer mais já que tem sei lá, uns 30 cumes no parque!
Fiquei feliz que curtiu, sabia que iria pirar lá!
Abração