Há horas tinha vontade de fazer essa
pernada de fim de semana pra conhecer uma reserva indígena guarani. Por motivos
que não vêm ao caso e os quais até nem lembro mais, não conseguira até então.
Sábado, cedinho, reúno-me a um grupo de 16 pessoas com predominância do sexo
feminino. Somente 3 são homens! De guias, Edgardo e Dieni, o casal que
toca a Rota Sul Adventure (http://www.rotasuladventure.com.br/), agência gaúcha de turismo de aventura. Embarcamos na
van,
saindo de Portinho às 7:15 da manhã, com breve parada em Santo Antonio
da Patrulha, famosa pelos sonhos e fabricação de cachaça (tão pura que chega a
ser azulada, segundo os nativos). Numa padoca, enchemos o pandulho pra enfrentar a pernada.
Contudo não é de Santo Antonio que parte o passeio. Por isso rodamos mais um
tantinho de kms até chegar a Caraá, uma daquelas cidades que, na febre das
emancipações, passou de distrito de Santo Antonio a município, oferecendo não mais que uma rua principal e pouco mais de 7 mil almas. A caminhada tem início às 10
horas, cruzando, inicialmente, uma bamboleante ponte de arame sobre o rio dos Sinos, logo embicando num estradão
de chão batido. Decorrida 1 hora de caminhada, Dieni chama minha atenção
prum cemitério em cujo original pórtico de
madeira foi agregada uma pequena casinha, provavelmente pra servir de moradia
ao coveiro. É claro que fotografo, sou louca por cemitérios embora não queira
ser enterrada e sim cremada. Até então plano, o relevo passa a mostrar suas garrinhas na forma dumas compridas lombas. Em ambos os lados da estrada há bergamoteiras vergadas de frutas. Colhemos algumas e as provamos. Deliciosas e sumarentas estão as frutas
. Enquanto subimos uma das tantas ladeiras, Di e eu aprendemos, com a psicanalista Rita, uma memorável aula da visão lacaniana a respeito de desejo, gozo e pulsão. Após 2 horas de
caminhada, ainda
em Caraá, paramos na frente duma igrejinha azul e branca prum belisquete. A partir daí, a pernada é numa trilha por onde só motos ou
4x4 conseguem trafegar. O restante da caminhada, em torno de 1 hora e 30 minutos,
já no distrito de Barro Branco, município de Riozinho, é marcada por fortes
subidas num terreno super irregular. O que compensa é desfrutar do frescor da
verdejante mata atlântica que ameniza os 28º C dum veranico intempestivo em
pleno inverno. Num claro de floresta, avista-se um dos muitos vales que
separam as dezenas de serranias da região. Uma pena termos de sair da trilha e voltar a caminhar noutro estradão. O bom é que, pouca demora, às 14 horas, cá estamos na Pousada Nhum Porã (Campo Bonito, em guarani). Somos recebidos pelo dono, Paulo
Fernando, há mais de 10 anos auxiliando os guaranis que vivem nos arredores. A pousada é um
grande galpão de madeira cujos quartos exibem portas à semelhança de baias de
cavalos. No meio da ampla peça, uma baita lareira indica que se esfriar podemos
contar com o conforto dum belo fogo. Apesar de rústico, o espaçoso cômodo, super acolhedor, arranca
entusiasmados elogios do grupo. São servidos cachorros quentes, sucos e
refrigerantes pra repor as energias consumidas em nem tão longa porém
exigente caminhada devido à predominância de ardidas subidas. Terminado o almoço, vou com
Arianne, Zé, Cris e Debora até o topo duma colina donde se avista parte do
litoral cujos destaques são Tramandaí e as torres eólicas de Osorio. E ali permanecemos
um tempinho curtindo a verde paisagem pespontada por picos de formatos
variados: desde os bem pontudos, passando pelos femininamente arredondados até os
desgraciosamente achatados. Tracejam o céu finas nuvens que quebram assim sua azulada monocromia. E ficamos de papo, uns dentro da casa, outros ao ar livre. É difícil
dar conta de tanta gente. Adoraria participar de todas as
rodinhas de conversas
que se formam mas é impossível porque infelizmente não tenho o dom da ubiquidade. Às
17 horas, todos se mobilizam rumo ao morrão a fim de assistir ao pôr do sol. O sentimento de confraternização com a natureza torna as mentes, agradavelmente relaxadas, rolando uma energia gostosa entre nós. Na beira do penhasco, temos a frente uma encosta de serra e a magnífica cachoeira da Linha 7. Às 17:30,
o espetáculo do sol poente tem início. Momento encantador assistir à bola
de fogo se esconder atrás das serras deixando um rastro de tonalidades alaranjadas sobrepostas umas as outras. Uma salva de palmas em louvor à natureza cala momentaneamente
a animada conversação. Já na pousada, proclamo a abertura da hora do angelus. Em
bom português, a empolada expressão nada mais é do que “gente, estão abertos os
trabalhos, vamos ao tragoléu”. Garrafas de vinho são desarrolhadas, amendoins e
pipoca quentinha são servidos de aperitivo. Tudo de bom esse happy
hour rural!! Pra
culminar o festerê, na janta, o prato principal são 3 travessas de
lasanha mais salada de alface, tomate, beterraba e cenoura cruas
raladas. Durmo na sala, deitada em rede ao lado da lareira. O único senão é o ronco
poderoso do Ed....deus que me perdoe, mas que vontade de arrolhar aquela “boquinha”.
Sorte dele que não sou psicopata!
Dia seguinte, graças a deus, não fico isolada na crítica aos roncos emitidos pela escandalosa garganta do Ed. Alguns companheiros também fazem coro aos meus reclamos......hahaha......toma, Mau Ed!! Terminado o café, nos despedimos de Paulo Fernando, um cara super zen, e às 10 horas pegamos um estradão de chão batido. Cacau e outro cachorrinho nos acompanham correndo faceiros a nossa frente. Volta e meia param e
nos esperam sentados no meio da estrada. Graças a
deus deixamos o estradão pra entrar em uma picada aberta na mata atlântica percorrendo
6 km em terreno fácil até à reserva indígena Mbyá. Bom Ed entra na aldeia e
pede permissão ao cacique José. Eu que aprendera com Paulo Fernando duas frases
em guarani, diante do afável índio, bem exibida, lasco “araporã (dia bonito)...jaudio
(bom dia)”, no que sou corrigida por José quanto à pronúncia desta palavra. Imediatamente sou abraçada por sua filha que fala algo em guarani. Quando ela traduz a pergunta, que significa se estou bem, mais uma vez me abraça
efusivamente quando respondo sim. Permissão dada, filmo e fotografo porém com moderação. Povoam
a pequena aldeia cerca de 40 pessoas e as casas só lembram ocas pelo telhado coberto com fibras de palmeira. Artesanatos feitos da casca da imbira estão à venda.
A maioria das pessoas, é claro, compra um ou mais itens. Um tal de cachorro,
chamado
Guri, de tanto incomodar, latindo e pulando em cima das pessoas, é
preso numa casinha. Do lado de fora, um outro dogue fica, segundo interpretação
de Jo, consolando-o....hahaha, essa é boa! Uma índia, fanática gremista, informa que o grenal está
1x0 pro Grêmio.....ebaaaa!!!! Percebo que este trek é a verdadeira indiada, tá ligado? Despedimo-nos dos índios e continuamos ao longo da mesma trilha na mata atlântica durante
3 horas e 30 minutos, alternando subidas e descidas suaves até alcançarmos um
lindo lago. Sob um frondoso pinheiro, nos acomodamos e descansamos um pouco
após beliscar algo. O dia está tão lindo quanto ontem e o calor ainda que atinja 28º C é suportável. Do lago em diante, mais 2 horas e 30 minutos numa
trilha ladeira abaixo que se estreita à medida que vamos perdendo altitude. Os 45
minutos finais exigem atenção constante porque a descida, num terreno crivado de
pedras, muitas delas resvaladiças pra caramba, é mega íngreme. Após um desnível de 900 metros desde a pousada, chegamos em Linha Pinheiro, Barra do Ouro, distrito de
Maquiné às 16:00, suados, cansados pero mui felizes. O dia termina com uma festiva
celebração no restaurante de Dodô, no morro da Borussia, em Osorio, comendo gigantescos
pastéis e brindando com a indefectível cervejinha.....tintim e até a próxima!!




Dia seguinte, graças a deus, não fico isolada na crítica aos roncos emitidos pela escandalosa garganta do Ed. Alguns companheiros também fazem coro aos meus reclamos......hahaha......toma, Mau Ed!! Terminado o café, nos despedimos de Paulo Fernando, um cara super zen, e às 10 horas pegamos um estradão de chão batido. Cacau e outro cachorrinho nos acompanham correndo faceiros a nossa frente. Volta e meia param e

