Saio de Porto na
quarta-feira, já noite, e perco quase 2 horas na free way pra andar 15 km. Tudo
por conta dum engarrafamento provocado pela manifestação de desabrigados em
repúdio à negligência do poder municipal. Quase choro de raiva. Sou consciente
de meu egoísmo. Entretanto, a pressa em chegar a Praia Grande é muita. Quero
desfrutar daquele
conversê miudinho com Mariolinda enquanto sorvemos algumas
taças de vinho na cozinha da pousada. Na quinta, já respirando o ar fresco de
Praia Grande, trato de descer correndo a serra do Faxinal até o centro da
cidade. Paulo, marido de Mariolinda, me resgata em frente ao supermercado Assis.
Retorno, assim, na garupa da moto de 400 cc, bem faceira, à pousada. Uma bela
salada de maionese, feita pelas mãos caprichosas de Mariolinda, mais uma
suculenta e macia carne de panela são o cardápio do almoço. Em homenagem aos
meus 61 aninhos. Meu niver, graças a deus, antecede o feriado da Proclamação
da República. Daí, né, aproveito e me dou de presente um trek na região de
Urubici. Com direito a este pit stop em Praia Grande. De pancinha cheia, trato
de descansar um pouco
após a refeição, escarrapachada no sofá do refeitório,
curtindo uma tevê. Às 15 horas, sacudo a preguiça e ponho o pé na estrada, feliz da vida. Adoooro uma
viagem. Subo, então, a serra do Rio do Rastro, e na altura de Bom Jardim da Serra, paro
numa casa de chá, a beira da SC 438 pra mastigar algo gostoso. Lá pelas 20 horas chego a Urubici, me
hospedando numa pousada bem maneira. Termino o dia jantando uma truta
de-li-cio-sa no Parador Santo Antonio. Dia seguinte, bem cedo, sigo até o
Albergue do Refúgio de Montanha do Rio Canoas onde vou encontrar Juan que será o
guia nesta pernada de 3 dias nos campos de cima da serra catarinense. Em lá
chegando, conheço Oscar e Federico. Ambos também participarão da caminhada. Às
09:30, botamos o pé na estrada. Tomara que os sinais de bom tempo à noite
passada – lua quase cheia se exibindo toda pimpona num céu despejado de nuvens – permaneçam nesta bela manhã ventosa apesar da pessimista previsão da meteorologia.
Rezemos pra que tudo não passe dum mal entendido! O trajeto
inicial não oferece dificuldade alguma. É uma estrada paralela ao leito do rio Canoas,
cujo nascedouro fica quase na borda do planalto conhecido como Aparados da
Serra. É pra lá que vamos, conhecer o Campo dos Padres, lugar já a um par de anos
na minha mira. Após a moleza da plana estradinha, segue-se uma subida,
relativamente íngreme. O que torna o ascenso um pouco dificultoso não é a
aclividade e, sim, o tanto de pedra solta que estorva a pisada. Como estou à
frente de meus companheiros, resolvo esperá-los. Escarrapacho-me num relvado
cercado por arbustos de floração amarela e por uma dezena de araucárias. Infelizmente, estas árvores que já foram abundantes na região, nos dias atuais, estão se tornando material minguado. Enquanto aguardo a chegada dos 3 muchachos, admiro o relevo
catarinense e me ponho a refletir como diferem dos campos de cima da serra do
meu Rio Grande. Aqui, há montanhas e vales profundos e a altitude é bem mais significativa:
varia de 1.000 a 1.827 m. A paisagem forma um mosaico intercalado por capões de
mata atlântica, bosques com araucárias e os
movediços solos turfosos,
permanentemente úmidos o ano inteiro. Atravessamos uns 3 ou 4 riachos de águas
rasíssimas. Basta pular algumas pedras e eis nossas patinhas saltitantes já na
margem oposta sem vestígio algum de umidade. Chegamos ao Campo dos Padres às
17 horas. Juan escolhe como lugar do acampamento o quintal da casa de seu
Arno. A tosca casa de 2 pisos, construída
com toras de madeira e pedra, está no momento sendo ocupada por um casal de Anitapólis,
Andreia e Marcio. Arrendatários de terras lindeiras às de seu Arno, criam algumas
centenas de cabeças de gado. Assim a cada 15 dias vêm a estas paragens cuidar
do que é seu. No final da tarde, o céu nubla e o vento, que soprou ao longo
do dia, arrefece. “Não me diga, Juan, que esse nome, Campos dos Padres, se deve
aos jesuítas, hein? Até nessas bandas deram eles o ar de sua graça?” Confirmada
minha
suspeita, Juan esclarece que os indefectíveis padres teriam dado com os
costados nestes ermos com o objetivo de esconder lingotes de ouro. Bueno, sou a única mulher do grupo e a única brasileira já que os três
homens são uruguaios. Oscar e Juan, gêmeos, são 5 anos mais moços que eu,
portanto também compartilham comigo “a tal de sabedoria adquirida com a ½ idade”
(só pode ser piada tal expressão, ala putcha!). O terceiro homem é o “jovem do
grupo”, com seus 47 aninhos. Ao contrário dos irmãos, radicados hace mucho
tiempo acá neste país tropical, Fred vive no Uruguay. Quando o vinho é aberto,
o papo torna-se, quem diria né, mais animado. Ah, o álcool! O pó de
pirlimpimpim dos adultos. Faz a gente voar alto. Abro uma lata de
sardinha ao molho de tomate e jogo por cima do miojo previamente cozido. Como com
sofreguidão. Estou esfomeada. Apesar da modéstia do ranguinho, uma sobremesa eu
trouxe: tijolinhos de goiabada! Na madruga de
sábado, acordo com o tão temível tamborilar
dos pingos d’água no teto da barraca. Volto a dormir...fazer o quê, né? Só
resta rezar pra que a chuva, se não cessar de todo, ao menos se aquiete de modo
a permitir que façamos os passeios planejados. Quando acordo de manhã, nem
sinal de chuva embora um céu cor de chumbo paire baixo sobre os campos. Menos
mal! Desjejum feito (o meu incluiu café preto acompanhado dum pão com queijo
polenguinho), partimos os quatro em direção ao canyon do rio Canoas, situado a
3 km do lugar onde estamos aquerenciados. Atravessamos uma campina, rodeada por
um semicírculo de colinas, cuja aparência lembra um monumental anfiteatro. No
espaço entre duas das elevações, descortinam-se algumas das dobras do rio
Canoas. Da primeira cachu do canyon tem-se uma visão frontal de sua queda
d’água que não ultrapassa modestos 10 metros,
já da segunda, só se avista a traseira.
Os altos paredões por onde as águas do rio escorrem assemelham-se a um gigantesco
portal escancarando-se, aí sim, sobre um precipício de 70 m. O colorido das
flores em meio ao verde da campina é um colírio pros olhos. Macegas de
margaridas brancas com seus miolinhos amarelos, bromélias em plena floração e outras tantas
flores anônimas mas igualmente belas enfeitam os campos de cima da serra festejando mais uma primavera da minha vida. A garoa aperta e visto meu poncho emborrachado. O tempo
melhora quando já estamos retornando ao acampamento, tanto que às 13 e 15 o sol
vem com tudo tornando mais alegre meu frugal almoço. Que não passa duma sopinha
de pacote e um naco de pão com polenguinho. Deliciosa refeição! Melhor tempero
que a fome não há. Fred desarrolha um tinto argentino da vinícola Miguel
Escorihuela Gascon que compensa o fracasso do Bardolino, aberto na noite
anterior, visivelmente avinagrado. De penitência, a maledeta garrafa foi
colocada ao sol pra azedar de vez! Os gêmeos, univitelinos, são
fáceis
de confundir olhos desavisados. Tanto que só, no final do primeiro dia, me dei conta dum pequeno
detalhe que permitiu que eu distinguisse um do outro: Oscar deixou crescer um
tufinho de pelos sob o lábio inferior. À medida que convivo com eles, percebo
semelhanças e diferenças nos temperamentos. É fácil fazer Juan rir, já Oscar não
se deixa levar pela piada fácil. Mais corteses que simpáticos, os dois exibem
modesto senso de humor. Já Federico, do alto de seus 1,83 conquista ao
primeiro vistaço. Além de guapíssimo (aaah....se eu tivesse 20 anos menos!),
sabe contar com malícia e vivacidade causos de personagens de sua terra. Terminado
o almoço, nos entocamos nas barracas. Que seja pra sestear, pra ler ou pra
devanear. É boa demais essa vida. Leio e cochilo até as 16 e 30, quando então chamo
os homens. “E daí, guris, vamos até a borda dos Aparados?” Decorrida uma hora
de caminhada, a cerração torna-se mais e mais espessa, impedindo que
continuemos o passeio. Pesarosos, retornamos ao acampamento. No final da tarde,
a garoa mantém-se firme e forte. Encasulados no interior duma gigantesca e
úmida nuvem que paira sobre os campos, nosso ânimo, entretanto,
é dos mais animados. Juan prepara um chima e rodamos a cuia de mão em mão
jogando conversa fora. Quando a noite baixa, iniciamos os preparativos da
janta. A única alteração em meu menu é a substituição da sardinha pelo atum.
Morta de fome, lambo o prato bem feliz! E dale mariola de sobremesa. Claro está
que não falta o bom vinho tinto. Somos um quarteto pra lá de pinguço.
Andreia nos convida pra provar canjica cozida no fogão a lenha. Feita com leite
tirado há pouco duma de suas vacas, está uma delícia o doce. Não há como não
dormir bem depois dum prosa agradável regada com boa comida e excelente bebida....oigatê!!
Em vez de galos fazendo cocoricó, desperto com mugidos de vaca. Adoro tudo
isso! Quando saio da barraca, dou de cara com o céu
deliciosamente azulado. Encortinado,
ontem, pela cerração, o ponto mais elevado de Santa Catarina, morro da Boa
Vista, exibe, nesta manhã de domingo, os seus arredondados 1.827 metros.
Embora não estejamos nos Andes, Juan contratou cavalos pra carregar nossa
bagagem, tanto na ida quanto na volta. Levando nos costados mochilas leves, retornamos
pela mesma rota percorrida na vinda. Despeço-me dos três companheiros quando
alcançamos a estrada. Estou com pressa pois tenho ainda que pegar a estrada.
Eles permanecerão em Urubici, só retornando amanhã pra suas casas. Quando estou a
uns 2 km do refúgio, onde deixei meu carro, vejo o sol iluminando as três magníficas
pedras que formam um cordão rochoso paralelo ao rio Canoas. Mesmo a minha
máquina, uma saboneteira vagabunda, consegue alguns cliques bem maneiros delas.
Desço a Corvo Branco a 5 km/h admirando a beleza desta monumental serra. E
depois, dale pé no acelerador porque tem vinhote me aguardando em Praia
Grande, hehe! Beleza de feriadão esse! E que vengan otros!








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