domingo, 25 de novembro de 2007

Atravessando o Portal do Sertão Zen

Da outra vez em que aqui estivera, Marcela me falara a respeito do Sertão Zen, mas como eu resolvera terminar minhas férias permanecendo em Macaquinho, deixei pra lá. Desta vez encaro o passeio, até porque o trekking é bom demais, são mais ou menos 22 km. Tudo do que preciso: esticar as pernas numa boa caminhada! E lá vamos eu mais Pacheco rumo ao famoso Sertão Zen. Saímos da cidade como se fossemos em direção a Loquinhas, nos esquivamos, contudo, pra leste, entrando em uma estradinha rumo a uma das tantas encostas da Serra Geral do Paranã, localmente denominada Serra da Baliza. Após um desnível nada difícil, em torno de 200 metros, alcançamos o Morrão, belo mirante, situado a mais de 1.400 metros de altitude de onde se tem uma visão panorâmica não só de Alto Paraíso como das serras da Baleia, do Buracão, da Almécega, da Conceição, da Boa Vista e do Morro do Papagaio. Trato de me proteger do sol colocando protetor, pena que dure pouco o bom tempo, porque não tarda muito, ecoam trovoadas, ao longe. Nuvens escuras ao norte e outras mais claras ao sul, deixam entrever algumas nesgas de céu azul. Atravesso um campo rupestre cheio de bonsais de mimosas. Sou apresentada à famosa arniquinha com a qual se faz a gostosa cachaça da região. As canelas de ema floridas exibem suas flores roxas. Arnicões já engalanados de flores rosa-claro, chapéus de couro e muricis pontuam o solo de amarelo e vermelho. As mimosas dão o ar de sua graça com seus pompons rosados. Margaridas e estrelas colorem de branco o pasto. Os trovões continuam se ouvindo, agora mais fortes, das bandas da região da serra de Santa Rita. Chegamos ao famoso Portal, assim chamado porque descortina uma outra paisagem, conforme informa Pacheco. Como não consigo perceber grandes diferenças, indago ele. Pacheco então explica que se eu olhar pra trás nada mais consigo enxergar: nem Alto Paraíso tampouco as serras da Baleia, do Buracão, Conceição, Boa Vista, Almécegas e Morro do Papagaio que até então vínhamos admirando. Muito observadora eu, hein?! Um pouco mais adiante, Pacheco indica, escondida numa mata de galeria mais a frente, a cabeceira do córrego Ferreirinha, nascente do rio Macacão. De fato, ingressa-se em outro mundo. Agora o que predominam são os campos de altitude. Lembram as savanas africanas com seu alto capim amarelado que só conheço de fotografias e filmes. Ali e acolá despontam árvores repletas de folhas verdes. A chuva, fraquinha, começa a pingar, e logo aperta. Escuto algo semelhante a latidos de cães. Intrigada, questiono Pacheco. Ele responde que o tal ruído vem a ser o coaxar do sapo-cachorro. Mas não é que parece mesmo um au-au?!! Coisa mais gozada, hehehehe!!! A chuva mantém-se miudinha quando então reingressamos de novo nos campos rupestres com suas formações pedregosas e dou de cara com o córrego Ferreirinha e suas sucessivas cascatas. Piro de alegria! É claro que me ponho a clicar a paisagem. Apesar da chuva, estou nem aí se a máquina estragar. Sinto fome, sei lá que horas são, estou sem relógio, sem lenço e sem documento, hehehehe. Paramos próximos a uma cascatinha onde aproveito pra encher minha garrafa com a água do córrego. Cada um retira de suas mochilas seus lanches passando, então, a compartilhá-los fraternalmente. Daqui pra frente a paisagem é deslumbrante!! Sobre um extenso lajedo escorre o Ferreirinha em cujas margens avultam formações rochosas impressionantes formando um longo corredor de pedras cujo término situa-se abaixo da cachoeira do Sertão Zen. Pacheco aponta outra cascata, denominada, por um amigo, de Banho Inca. Regularmente dispostas umas sobre as outras, as pedras, de fato, assemelham-se àquelas construções encontradas nas ruínas de Tambomachay. A chuva reinicia forte. Sem condições de continuar filmando, me resigno e guardo a máquina na mochila. Droga!!! Andamos mais um pouco e as pedras que ladeiam o córrego Ferreirinha aumentam de tamanho lembrando totens gigantescos. A paisagem é puro delírio, estou deslumbrada! É lindo demais, está sendo o mais lindo passeio dentre os muitos que fiz aqui na Chapada dos Veadeiros. Sem sombra de dúvida! Quando chegamos em cima da cachoeira do Sertão Zen, a chuva não dá trégua. Avisto o vale do Macacão lá embaixo. É de perder o fôlego. Suspiro sem parar. É tudo muiiiiitoooo lindoooo!! Pacheco conta que já acampou várias vezes aqui. Fico apavorada pois, de onde estamos, a distância até a queda d'água do Sertão Zen, com 175 metros de altura, é de apenas 20 metros. Apesar da chuva, continuamos nosso passeio atravessando o Ferreirinha pra alcançarmos um mirante de onde poderemos ver a cachoeira de frente. É uma visão impactante, nem tanto pela altura, eu diria, mas por todo o conjunto de pedras gigantescas que a circundam. Amo de paixão este lugar e não barganho elogios e exclamações de encantamento. Deixo a timidez de lado e fico de boca aberta, bem deslumbrada admirando tão assombrosa paisagem! Adoraria ficar aqui mais tempo, poder acampar e explorar melhor seus inúmeros recantos mas, infelizmente, temos de voltar. No caminho de volta, Pacheco me diverte desfiando estórias hilárias sobre figuras
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que deram com os costados em Alto Paraíso. Rio sem parar, às gargalhadas, com seu jeito sério de contá-las. Esse cara é muito engraçado mesmo! Sorte nossa que a chuva estia em definitivo, assim nosso retorno se faz sob bom tempo. Andreza telefona pra Pacheco e nos pega de carro num ponto da estrada que conduz à trilha do Morrão. Pra comemorar o lindo dia, convido-os pra beber algo e lá vamos nós pra pizzaria Joshua tomar um drink. Quer coisa melhor do que uma boa taça de vinho tinto depois dessa caminhada?

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